terça-feira, 28 de setembro de 2010

Aperitivo

Você já ouviu falar em Lugar de Memória?
Pois é, aí vai uma definição e um pouquinho do que os aguarda!

Para Pierre Nora, lugares de memória são restos físicos: museus, igrejas, escolas, festas, datas, associações... Esses restos vão representar, para um determinado grupo, símbolos de um passado ainda vivo; um lugar de memória é um guardião de algo que já se foi, mas permanece no presente, vestígios imateriais de uma conduta material, palpável, algo que transcende as mudanças ocorridas no mundo. Neste sentido, um lugar de memória é um guardião dos valores do passado; algo que nos remete ao vivido, mas que está presente em nossa vida, em nossa memória.
Lugares de memória, portanto, são locais não mais habitados, mas que pelos sentimentos que despertam se tornam unanimidades; são momentos de história retirados do movimento da história; sua necessidade se faz presente porque aquilo que eles defendem estão ameaçados de esquecimento.
Neste sentido, tornam-se sinais de reconhecimento e de pertencimento de um determinado grupo numa sociedade que só tende a reconhecer indivíduos iguais e idênticos; o lugar de memória se torna o elo afetivo do passado com o presente, testemunhas de uma outra era; ilusões de uma eternidade que nos escapa.
O lugar de memória se faz necessário, portanto, para a construção de uma identidade cultural.
Tomando como definições de memória e de história e também “lugar de memória”, é salutar que percebamos que a história passa por períodos de transformação, não somente em épocas, modos de portar-se ou inovações tecnológicas, mas também, na maneira como nos é apresentada. E este ensaio traz como objetivo principal apresentar uma nova maneira de se escrever a história contando com “objetos presentes que nos remetem a um passado ausente”, e que ao longo de toda essa pesquisa nos remeterá a um passado não tão ausente assim. Poucos notam que a memória é tão poderosa a ponto de fazer de um local específico (edificação, praças, igrejas, culturas, etc.) um ícone de identidade, um ponto de referência, uma certidão de nascimento ou sinônimo de glória ou decadência, a memória em si é algo interno que cresce juntamente com o indivíduo e quando estimulada, consegue exteriorizar um sentimento, uma época e uma identidade.
Quando se escolhe um local específico, um "Lugar", a memória funciona como um registro escrito, por proporcionar ao "memorando", o retorno a determinada situação, determinada época.
E como todos os documentos históricos possuem como caráter principal o resgate de acontecimentos ou até mesmo o registro de civilizações, para que não se perca a identidade, podemos entender o conceito de “Lugar de Memória” como uma nova forma de se escrever a História, contando muito mais com o simbólico, com a imagem e não somente com o imaginário, para que se perpetue no consciente e inconsciente dos indivíduos a distinção de épocas ou acontecimentos através das edificações, das paisagens ou das mudanças que ocorreram no decorrer dos tempos e deixaram-se perder em meio às inovações e novas experiências que surgem em todo o processo histórico.
Um lugar de memória, não é um lugar elegível por votação, e sim, um lugar que faça por si só um retrocesso ao passado proporcionando a aquele que o observa, que freqüenta esse espaço, o sentimento de reconhecimento e de pertencimento àquele período ao qual seu lugar de memória refere-se. Esses “lugares” são caracterizados pela sua relevância na história de determinada região ou cidade. Podendo ser desprovidos de valores estéticos representativos de época, mas carregado de forte valor sentimental. São estruturas repletas de representações simbólicas que remetem a um passado comum das pessoas desse lugar. As pessoas sentem-se interligadas umas as outras e o lugar de memória torna-se um patrimônio coletivo. Trata-se do sentimento de pertencimento.
O sentimento de pertencimento é a crença subjetiva numa origem comum que une distintos indivíduos, indivíduos estes que se sentem membros de uma coletividade onde atribuem os mesmos valores as suas crenças. O lugar de memória tem um valor especial para essas pessoas porque as une e as conecta no passado. Portanto, toda pessoa que se sente ligada afetivamente ao lugar, carrega esse sentimento de pertencer com orgulho e respeito ao mesmo. Mesmo que a estrutura física do lugar tenha se deteriorado, sua memória permanece forte e viva no cotidiano das pessoas por que as marcou de alguma forma. A memória do que representou o lugar torna-se mais forte que o prédio físico, daí vem o cuidado e a importância da preservação desse espaço. Movidas pelo sentimento de pertencimento, as pessoas empenham-se em preservar o resto físico para que não se perca com ele também a memória. Geralmente os lugares de memória são lugares que expressam importância para a cidade seja na sua fundação ou na sua formação. Sendo assim, preservar o lugar de memória é preservar a memória da própria cidade e com isso a memória dos seus habitantes.
Cabem a nós historiadores e formadores de opinião, difundir essa idéia e esse novo método de ensinar e valorizar a História, para que não se deixe perder com o passar dos tempos a essência de toda uma sociedade e até mesmo de uma nação.
A criação de “lugar de memória” possibilita resgatar momentos significativos do seu passado, acessar a memória coletiva e permitir aos homens, legitimar a ação no presente e tornarem-se agentes de sua própria História.

Parte da tese de Conclusão de Curso entitulada: "Palácio Palmeira, um Lugar de Memória" de autoria de Gabriel Spinelli.

Referência bibliográfica:
NORA, Pierre. Entre Memória e história: a problemática dos lugares: Projeto história. São Paulo: PUC-SP. Nº. 10, p.12. 1993.

HALBWACHS, Maurice. A Memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

LE GOFF, J. História e memória. Campinas: Ed. Da Unicamp, 1996.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo artigo "Lugar de Memória".Fiz um passeio em minha memória e resgatei parte da história que achei que não existia mais em mim. Proporcionar isso a nós, leitores, é um dom que não é para qualquer um. Estou anciosa para ver os próximos artigos. Abraços!

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